Em Berlim, visitar lugares abandonados é atração turística. Eles podem não estar em guias de viagem comuns nem na sua timeline do instagram, mas basta um clique no google ou uma pergunta na recepção do seu hostel para descobrir lugares fora da rota comum. Existem tours específicas para visitar lugares escondidosblogs dedicados ao assunto e já tem gente ganhando dinheiro com o hype da Berlim abandonada.

Teufelsberg (teufel = diabo, berg = montanha), a Montanha do Diabo, é uma das mais altas da cidade. Ela fica em Grunewald, uma floresta no extremo oeste de Berlim. Como muitas outras coisas na capital alemã, não é uma montanha original: passou a existir após a Segunda Guerra Mundial, no começo da Guerra Fria.

No final da ditadura nazista, o governo começou a construir uma escola técnica militar nazista onde hoje é a montanha, colada na floresta. Fim do nazismo, fim da obra. Mas Albert Speer, principal arquiteto de Hitler, era bem bom no que fazia. Os EUA tentaram demolir a construção, sem sucesso. Finalmente, ficou decidido que aquele era um bom lugar para ser transformado em lixão, guardando escombros da Guerra.

Entulho de demolições (e sabe-se lá que mais) foi levado para lá e, quando a pilha ficou alta o suficiente para parecer uma montanha, deram um trato plantando árvores na montanha de lixo. O lugar ficou realista e agradável o suficiente, e lá no topo foi construída uma torre de escuta e espionagem, não muito escondida, mas num ponto privilegiado o suficiente pra interceptar ondas de rádio Stasi – e ainda com uma bela vista da cidade.

Em algum momento o terreno foi totalmente abandonado. David Lynch já tentou arrematar o lugar e transforma-lo em uma Universidade de Meditação Transcendental (não deu certo, como você pode ver aqui) e hoje o terreno está nas mãos de um arquiteto chamado Harmut Gruhl que “empresta” o lugar para uma empresa turística em troca de favores.

Ou seja: Teufelsberg não está mais totalmente abandonado. Mas vale a visita!

Se você não é uma pessoa tão perdida e azarada quanto eu, chegar lá não será difícil. Mesmo assim, separe um dia inteiro para ir, conhecer e voltar. No inverno, não se esqueça de sair pelo menos uma hora e meia antes de escurecer, já que não há iluminação na estrada e na floresta. E mais importante: não confie no GPS do seu celular.

Para chegar lá você tem dois caminhos. Pegar o S1 para Grunewald e caminhar pela floresta até encontrar a montanha (não será difícil), ou pegar o S9 ou o S75 para Heerstraße e ir seguir uns 2 km pela Teufelsseechaussee. A segunda opção é mais fácil e se você estiver de bicicleta fica mais fácil ainda. Esse mapa improvisado que achei na internet pode te ajudar um pouco:

No fim do segundo estacionamento você enxergará uma trilha que leva até o topo da montanha e mais um monte de gente perdida como você. Alguns blogs que contam como chegar até lá estão desatualizados e não contam que todos os buracos que existiam na grade em volta da torre estão fechados com arame farpado.

Perdida que sou, fiz o caminho todo errado da primeira vez. Choveu enquanto estávamos na floresta. Saí na parte de trás da torre na esperança de entrar por algum buraco da cerca. Rodei o terreno inteiro agarrada na grade (enquanto um colega canadense ria da minha cara) pra não escorregar na lama e  cair até chegar na entrada principal e… o portão estava trancado com um cadeado. Estava ensaiando o alongamento pra escalar o portão, quando um guia turístico chegou e acabou com o nosso espírito de aventura: há uma taxa de nove euros para entrar.

O guia contou que um grupo invadiu o lugar em um verão para fazer uma festa, botaram fogo em alguns pontos da cúpula, quase morreram e acabaram com a diversão. Agora ele mora lá (e o dono do terreno sabe) e a equipe dele está ajudando a limpar o lugar e evitar que pessoas morram lá dentro ou destruam ainda mais a torre. Um carro da polícia passa em Teufelsberg diariamente pra ver se está tudo certo. Enfim, pague os nove euros (nove cervejas perdidas) e seja feliz.

Teufelsberg é realmente incrível. Poucas paredes em volta, grafitti por todos os lados e uma vista maravilhosa. Se você der sorte ainda encontra trabalhos de artistas famosos como o Mein Lieber Prost,  SAM Crew e ALIAS. Uma vez lá dentro, uma das das coisas legais fazer é subir até a cúpula e brincar com eco. Levar uma lanterna também é boa ideia, já que nos últimos andares não há iluminação. 

[Texto sobre um dos lugares mais interessantes de Berlim, para o site de viagens  Matador.]

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