O wi-fi só funcionava na cozinha, diferentemente do que o dono do apartamento havia dito, e apesar de termos prometido viver como boas berlinenses sem depender dessa máquina de improdutividade chamada internet, a cozinha passou a ser o ambiente mais frequentado do apartamento.

A mesa estava sempre coberta por mapas, moedas e todo tipo de papel acumulado (por mim, na maioria das vezes) no dia anterior. Eu lavo a louça de ontem, ela faz o café. Eu faço o café, ela lava a louça de ontem. As primeiras quatro horas do dia, que já começavam com três horas de atraso, eram usadas para planejar as atividades da tarde. Na verdade era uma grande desculpa para fazer o café da manhã, a melhor parte do dia, durar mais. Uma xícara de café pra cada – a quantidade exata que sai de uma cafeteira italiana pequena, servindo duas pessoas – duas fatias de pão com manteiga, queijo gouda e o sol brilhando lá fora. Como não se apaixonar por um lugar onde o gouda é o queijo mais barato do mercado?

Talvez por influência da cafeína, nessas primeiras horas do dia a gente ainda acreditava que os planos seriam seguidos a risca e não trocados por alguns metros quadrados de grama e uma cerveja barata comprada em alguma Späthaus. Späti, para os íntimos, é um tipo de lojinha de conveniência 24h com produtos essenciais para a vida de qualquer ser humano na Alemanha – dezenas de opções de cerveja e papel higiênico, por exemplo – e era o nosso lugar preferido na cidade, depois da cozinha. Dá pra encontrar um späti em qualquer esquina, normalmente sob o comando de um imigrante turco mais velho de dia e seus sobrinhos cobrindo os piores horários da noite.

O casaco voltava para o cabide, a chave para cima da mesa, e lá estávamos nós novamente na cozinha, bebendo a última cerveja do dia.

 

Apesar de sonhar em rodar o mundo, de alguma forma todos os aviões que eu pego acabam descendo em Berlim. Já tinha visitado a cidade algumas vezes, mas essa foi a primeira em que saí de São Paulo sem estar fugindo de alguma coisa. Um emprego, um relacionamento, uma decepção; minhas viagens foram sempre uma espécie de fuga. Dessa vez era diferente, eu estava feliz antes mesmo de colocar o pé no aeroporto. E isso faz uma puta diferença.

O nosso apartamento era um Altbau (“construção antiga”, em alemão), nome dado aos prédios que foram construídos antes de 1949, e são um fetiche entre berlinenses e todos que preferem escrever Berlim com N. Não demorou muito para eu acabar sofrendo do mesmo mal. Quanto mais antigo, melhor. Prédios baixinhos com no máximo seis andares e sem elevador; um pé direito que torna a tarefa de trocar uma lâmpada quase impossível; janelas grandes e uma cozinha ensolarada. Por menor que seja a cozinha, é provável que ela seja o cômodo principal do apartamento, com direito a um sofá encontrado na rua e caixas de som disputando espaço com panelas.

É incrível como com pouco tempo na cidade e algum convívio com alemães (ou com o apartamento deles, como era o nosso caso) você já começa a se adaptar a um estilo de vida bem mais simples do que conhecemos no Brasil.

Pra que ter uma torradeira se você pode usar o forno? “Microondas é apenas uma invenção da indústria de eletrodomésticos para fazer as pessoas gastarem mais dinheiro e encher todo mundo de radiação.” Filtro de café descartável só serve para fazer você acumular mais lixo não reciclável. Mais importante que ar condicionado é aquele ventinho gostoso que entra pela janela, que em um bom Altbau é de tamanho suficientemente grande em todos os cômodos, até no banheiro.

Além do excesso de eletrodomésticos desnecessários, a nossa relação com o sol é algo que deixa os alemães visivelmente desconfortáveis quando visitam o Brasil. “Acho muito estranho o jeito como vocês desprezam o sol aqui. Lá em Berlin ele é tão valioso. As pessoas praticamente brigam para conseguir acompanhar o sol enquanto caminham na calçada”, disse uma amiga alemã depois de ter passado alguns meses por aqui. Ela ficava inconformada em ver o sol brilhando e os amigos se escondendo dentro de casa ou em um restaurante com ar condicionado.

 

O hábito de ocupar o espaço público que está chegando em São Paulo com passos em 2014 já existe em Berlin desde 1900. Todo bairro tem sua praça, por menor que ela seja, e sempre terá alguém pra aproveitar as poucas – ou muitas, no verão – horas de sol que esquentam a cidade.

Pelo menos isso eu consegui trazer para São Paulo sem grandes problemas. Hoje em dia eu e meus gatos disputamos os poucos metros de raios uv que, após passar por diversos obstáculos de concreto, conseguem encontrar as pequenas janelas do meu apartamento. De manhã ele aparece na cozinha, passa pela sala lá pelo meio dia, pelo quarto às 16h e, depois das 18h, não pode ser encontrado em lugar algum. Não colocar cortina escura nos quartos “para ser beijado pelo sol de manhã” (juro que eu li essa frase no anúncio de um quarto para alugar), por outro lado, é uma mania que eu ainda não consegui adaptar às manhãs brasileiras.

Mesmo depois de meses em Berlin, nunca encontrei um prédio residencial com piscina, nem nas partes mais ricas da cidade. Por outro lado, a poucos minutos do centro da cidade você consegue encontrar lagos que se transformam em praias no verão, com gente de todas as idades disputando um espacinho na areia. O nível de coliformes fecais presentes na água pouco importa às centenas de jovens que curam a ressaca na beira d’água todo final de semana, bebendo Club Mate (bebida gaseificada de mate) e fumando cigarros que, apesar de ainda não terem sido legalizadas por lá, podem ser comprados em qualquer parque da cidade, graças a imigrantes africanos muito simpáticos que sabem pronunciar a palavra maconha em mais de cinco línguas.

Em Berlin vida era mais leve.

E muito mais barata também.

E foram as coisas mais simples, aquelas que não podem ser fotografadas nem enxergadas a olho nu, que fizeram eu criar uma leve obsessão por essa cidade.

 

Alguns metros quadrados do nosso apartamento, na Urbanstrasse 178, estavam sempre tomados por garrafas vazias, que em Berlin é o equivalente a barras de ouro – 25 cents a garrafa de plástico e 8 cents a garrafa de vidro. Elas podem ser trocados em qualquer supermercado, por dinheiro ou cupons de desconto, dependendo do humor do aparelho eletrônico ou do funcionário que resolvesse nos ajudar. Ambos só falavam alemão, então era sempre um pouco difícil identificar qual humor era esse. Os bares e clubs também costumam cobrar um euro a mais (a chamada pfand) por cada bebida comprada, que você recebe de volta assim que devolver a garrafa.

Não é a toa que esse negócio de separar o lixo deixou a gente um pouco paranóica. Na segunda semana de viagem a minha visão míope já estava capacitada a enxergar garrafas de plástico em um raio de até dez metros de distância. Era tanta, mas tanta garrafa que cheguei a calcular quantas precisaria juntar para conseguir pagar o aluguel, caso resolvêssemos rasgar a passagem de volta – mil e duzentas, mais precisamente.

Voltar para o São Paulo foi toda uma nova viagem da qual eu nunca consegui voltar. “Você viu que já tá 23 graus em Berlin, amor? E ainda é maio!” ou “Adivinha quem vai tocar essa semana no Berghain?” são frases que não causam nenhum estranhamento aqui em casa. Se não tivéssemos gastado todo o nosso dinheiro com a viagem, uma terapia em casal para resolver essa nossa relação poliamorosa à distância seria adicionada às contas do mês.

Consigo até imaginar as duas deitadas em um divã, falando sobre essa crise pela qual estávamos passando desde que uma das parceiras – Berlin, aquela egoísta – decidiu que não ia voltar pro Brasil com a gente. Passaríamos horas reclamando que nossos amigos estão se afastando porque não aguentam mais ouvir a gente falando nela. Nina culparia um dos pilares da relação – Berlin, como sempre – por esse desejo incontrolável em encontrar um carrinho de currywurst ou um trailer de Kebab que ela sente toda vez que sai de alguma festa. Eu rebateria falando que mais preocupante ainda são essas alucinações que me fazem acreditar que a aula de alemão é o momento mais divertido da semana. Nós quatro – eu, Nina, Berlin e a terapeuta berlin-lacaniana – concordaríamos que a melhor opção seria resolver urgentemente uma forma de nos vermos com mais frequência ou teríamos que apagar Berlin de vez das nossas vidas.

 

Hoje é dia 21 de junho de 2014. Está 15 graus em Berlin. Exatamente um ano se passou desde aquela tarde no Mauerpark, quando estava acontecendo a Fête de la Musique (a prima européia da Virada Cultural). Nunca fui religiosa, mas hoje me peguei acendendo velas e colocando todos os discos que comprei na viagem para tocar. Olhei ao redor e percebi que a minha casa aos poucos foi se tornando um altar para Berlin. Nunca tive essa conversa com eles, mas meus amigos já devem estar duvidando da minha sanidade mental. Já devem ter percebido que parte do meu cérebro ficou em terras germânicas, mas não tiveram coragem de me avisar.

O jogo americano da cozinha é um mapa de Berlin. O lustre da sala foi comprado em Berlin (como eu consegui traze-lo para São Paulo já renderia outro texto). O vasinho de lavanda no parapeito da janela só está lá para me lembrar do mar de flores roxas que a gente fotografou no Mauerpark. Não quero ter uma torradeira. Nunca mais conseguirei colocar uma garrafa no lixo sem sentir que estou jogando dinheiro fora. Já faz um ano que a página inicial do meu navegador é um site de busca de passagens em promoção.

Abro uma das redes sociais que já prometi deletar pelo menos cinco vezes só esse ano e vejo que alguém publicou uma foto no Fête de la Musique, com as mãos para o alto, dizendo que Caribou – uma das minhas bandas preferidas – tocou Sun bem na hora que o sol começou a se pôr, comemorando o Solstício de Verão. Chorei igual um bebê. Berlin me traiu. Nunca dei bola para o Solstício de Verão (pra falar a verdade, acabei de procurar o significado no Google), mas estava certa que se existe um lugar no mundo onde eu deveria estar nesse momento, é ouvindo Caribou comemorar o Solstício de Verão cantando Sun no Mauerpark. Não requentando o macarrão de ontem e assistindo programas de culinária na tv.

Podiam ter sido os alemães, mas foram o suíços que, em 1868, diagnosticaram uma doença nova, muito similar à melancolia, que estava deixando as pessoas alucinadas, confundindo o passado com o presente e perdendo o tesão pela vida real. Deram o nome de nostalgia. Os médicos acreditavam que a nostalgia podia ser curada com ópio, sanguessugas e uma viagem aos alpes Suíços.

Nunca visitei os alpes suíços, mas tenho certeza que uma nova epidemia nostálgica pode ser curada na cozinha da Urbanstrasse 178. Com uma xícara de café – a quantidade exata que sai de uma cafeteira italiana pequena, servindo duas pessoas – duas fatias de pão de forma com manteiga, queijo gouda e o sol brilhando lá fora. E um amor, já que o ópio foi proibido.

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