Nunca planejei ir para Valência. Não que eu não tivesse vontade de conhecer a cidade, mas ao pensar na Espanha a lista passava antes por Madrid, Barcelona, Costa Brava, Ilhas Baleares, e a pobre Comunidade Valenciana ia ficando para trás. A própria decisão pelo país foi usando nosso método preferido para escolher um destino: procurar a passagem mais barata para algum lugar onde falem outra língua e seja verão. Dificilmente dá errado.

A ideia de conhecer a terra da Paella veio de uma amiga valenciana que estava visitando o Brasil. Ela nos convenceu falando que era uma ótima cidade para ter como base e conhecer as praias ao redor, mesmo sem carro. Além de ficar a menos de duas horas de distância de trem de Madrid, onde aterrissávamos. Não pensamos duas vezes.

Apesar da Espanha ser um dos destinos favoritos dos brasileiros, Valência dificilmente está nos planos, mesmo sendo a terceira maior e uma das mais antigas cidade do país. Confesso que, além das praias ao redor, não tinha muitas expectativas sobre a cidade. Todas as fotos me mostravam construções modernas, esculturas de arte contemporânea e praças amplas – lindas, mas não exatamente o que eu procuro quando penso em uma viagem para a Europa. E como foi bom me surpreender! Valência é sim tudo isso, mas é muito mais que isso também.

Foto do centro antigo de Valencia

Se você chegou a esse post procurando informações sobre os pontos turísticos e melhores restaurantes da cidade, terei que desaponta-lo. Ficamos apenas 4 dias na cidade, 3 deles procurando uma praia para tentar aguentar o calor, que passava dos 35 graus em uma cidade pouco arborizada. Não entramos em nenhum museu. Perdemos o horário do Mercado Central (fecha às 15h, já aviso). Esquecemos que lá a siesta é levada a sério. Todas as tentativas de acompanhar um walking tour foram derrotadas pelo sono (e pelo jetlag), e não conhecemos nenhuma balada da cidade.

Mas não podia ter sido a melhor escolha para os preguiçosos primeiros dias de férias.

Chegando em Valência

Trem de alta velocidade de Madrid para Valencia

Chegamos na Espanha por Madrid, e de lá pegamos um trem de alta velocidade (AVE) na estação Puerta de Atocha para Valencia. A viagem é super rápida e confortável, em uma hora e quarenta minutos você já chegou no destino final. Mal dá tempo de pedir a segunda cerveja e tirar um cochilo (que mentira!). Comprando com antecedência, a passagem sai em torno de 22 euros. Quando pesquisamos, um mês antes de viajar, o mesmo trajeto feito de ônibus (que dura 4 horas e meia) era apenas cinco euros mais barato.

Chegamos em Valência na estação Joaquin Sorolla. Vale lembrar que o metrô fica bem perto (uns dois quarteirões), mas não dentro da estação de trem. A estação, apesar de moderna, talvez não seja o melhor lugar para matar aquelas 5 horas entre o check out e o embarque. Os banheiros são pagos, os lugares para sentar são concorridos e não há muitas opções de alimentação (um McDonalds e dois cafés).

stação de trem Joaquin Sorolla em Valencia

Importante: não sei como está a situação nos outros países da Europa, nem no resto da Espanha, mas em todos os trens que entramos entre Madrid > Valencia > Barcelona passamos pelo raio-x. Ou seja: deixe objetos pontiagudos em casa e se programe para estar na estação com pelo menos meia hora de antecedência, caso tenha fila.

O transporte público na cidade funciona muito bem e é barato, em comparação com outras cidades europeias (1.50 euros). Há opções de tickets diários para até 72h e um combo de 10 tickets unitários. Importante #2: o metrô costuma funcionar das 6:00 às 23:30. Lembre disso na hora de comprar aquela passagem de trem mais barata para as 6:30am.

Foto do terraço em Valencia

O apartamento onde ficamos era um pouco afastado do centro, então nosso primeiro contato com a cidade foi em um bairro que me lembrou alguma cidade do interior paulista, com casas e prédios baixinhos. Poucas pessoas na rua, pássaros e silêncio. O bairro, Paterna, apesar de já ser considerado em outro município, é bem perto da cidade para parâmetros paulistanos. Uma viagem de trem de 25 minutos te deixa no centro histórico da cidade.

Mesmo nos bairros mais centrais a cidade pode parecer um pouco vazia – ainda mais nos meses quentes (julho, agosto e setembro), quando boa parte dos moradores tira férias para aproveitar a praia. Pode ser decepcionante para quem está atrás de festas e agito, mas é um ótimo respiro para quem vem de cidades megaturísticas como Barcelona, onde no verão algumas regiões ficam insuportavelmente cheias.

Ciudad de las Artes y las Ciencias

O ponto turístico mais conhecido de Valencia acabou sendo a melhor surpresa que a cidade me apresentou. Arquitetura contemporânea megalomaníaca, inteira branca, cinema 3D, aquário: tinha tudo para ser armadilha para turistas. Estava tão descrente que deixamos a visita para o último dia. Queimei a língua lindamente e passamos o dia inteiro só admirando a arquitetura, os reflexos e sombras dançando nos lagos (artificiais, eu sei) e nos mosaicos brilhantes que cobrem o complexo.

Foto da ponte na Ciudad de las Arts em Valencia, Espanha.

O complexo é relativamente novo, foi inaugurado apenas em 1998. Ele foi todo desenhado pelo arquiteto valenciano Santiago Calatrava (o mesmo que projetou o Museu do Amanhã, no Rio) e pelo Félix Candela, e, apesar de ter se tornado o símbolo da cidade, sua construção foi acompanhada de várias polêmicas em torno do custo da obra (a cidade estourou o caixa diversas vezes antes de terminá-la) e algumas denúncias de corrupção.

Foto do jardim dentro da Ciudad de las Arts, em Valencia, Espanha.

Não entramos em nenhum dos edifícios e, sinceramente, não me arrependo de ter economizado esses 30 euros. Andar sem rumo, conhecendo os jardins e admirando a arquitetura – que é realmente impressionante – já vale a pena.

Jardines del Turia

“Não procure nenhuma imagem no google, só vá lá ver com seus próprios olhos” foi o que minha amiga disse ao pedir que não deixássemos de visitar os jardins do Turia, o rio que corta a cidade e foi transformado em parque. Claro que eu não fui forte o suficiente pra cumprir uma promessa dessas, e ainda assim, fiquei impressionada. Parte por ser realmente um projeto de parque incrível, e parte por ter vivido em São Paulo a vida inteira. Impossível ver um (ex) rio que corta a cidade inteira de Valência, com uma marginal para carros de cada lado, e não pensar nos rios Pinheiros e Tietê – e em todas as formas que esses rios poderiam ser aproveitados.

A história do Rio Turia e sua transformação em parque é incrível e complexa, mas deixo para um post a parte. [spoiler: ela só existiu depois de diversas manifestações da sociedade civil, tá?].

O parque tem 9 km de extensão, é dividido em várias áreas com parquinhos para crianças, ciclovias, quadras, lagos e até um Gulliver gigante que serve como parque de diversões para crianças e causa inveja nos adultos (que não podem subir no brinquedo).
Foto aérea do parque gulliver
Foto: Everyday Tourist

O parque termina (ou começa?) na Ciudad de las Arts. Vale alugar uma bicicleta e pedalar até lá.

Praias

Foto da praia Malvarrosa em Valencia

Pergunte a qualquer valenciano qual é a melhor praia de Valencia e ele lhe dará algumas indicações de como sair da cidade para encontrar uma praia realmente bonita. A verdade é que as praias de Valencia não são de todo mal, mas comparadas com outras pérolas do mediterrâneo que ficam a poucas horas da cidade, elas acabam passando despercebidas. Peço perdão as amigos valencianos, mas dificilmente um brasileiro irá se impressionar elas. Pense em um litoral sul paulista mais limpo, com uma boa infraestrutura para turistas, e com a possibilidade de fazer topless sem ser presa. O que é sempre ótimo um ponto positivo quando a temperatura chega próxima aos 40 graus.

Malvarrosa

Foto do pôr do sol na praia Malvarrosa, Valencia.

Malvarrosa é conhecida como a melhor praia dentre as que ficam próximas do centro da cidade. E com “próximas” eu quero dizer a uns bons 7km do centro histórico, 30 min de ônibus ou tram. Eu diria que é uma mistura de Miami com o Guarujá. O calçadão, largo e de pedras claras, parece ter sido reformado nos últimos anos, e conta com uma ótima oferta de bares, restaurantes, banheiros e chuveiros.
Na areia há vários quiosques vendendo cerveja e tinto de verano, mas o que os europeus gostam mesmo é de farofar. E não é um lanchinho para beliscar à tarde, não, tá? Estou falando de potes e potes de salada de maionese, macarrão e batata para a família inteira. Acho ótimo. No segundo dia já estávamos atrás de um cooler e uma bolsa térmica para não pagar os preços inflacionados da praia. Os guarda sóis e cadeiras de praia também tem um preço salgado, em torno de 5 euros (cada, por pessoa) e em sua maioria são daqueles de palha, fixos na areia.
A impressão que eu tive é de que a cidade inteira estava na praia, o que explica as ruas do centro vazias à tarde. Ao entardecer, a temperatura fica mais agradável e senhorinhas valencianas colocam suas mesas no calçadão para jogar cartas e jantar ao ar livre com a família e os amigos. Toda uma vibe interiorana <3
Pôr do sol em Malvarrosa, Valencia.
O pôr do sol visto das ruelas que desembocam na praia foi um espetáculo à parte.

Valencia é a cidade que inventou a Paella, e há rumores de que em Malvarrosa se come a melhor. A receita original, diferentemente do que estamos acostumados a comer no Brasil, não mistura carnes e frutos do mar. Ela é feita com arroz, feijão verde, frango, coelho, pato e açafrão. Em muitos lugares há a opção vegetariana, peça por Paella de Verduras.

El Saler

Após tentarem te convencer a sair da cidade, os valencianos lhe dirão que El Saler é a praia mais bonita de Valência. É um pouco mais afastada, mas os ônibus da linha 25 te levam do centro até a praia. Mesmo sendo próxima da cidade, da praia não se vê prédios (ou qualquer sinal de cidade) e sim muito verde e uma faixa de areia de 2,6km km de extensão. Apesar de ser mais imersa na natureza e não ser cercada por um calçadão, a praia também conta com uma boa estrutura para turistas (na área próxima aos pontos de ônibus), com quiosques, banheiros, alguns restaurantes e aluguel de cadeira e guarda sol.

Restaurante na praia El Saler em Valencia, Espanha.

Pesquisando o trajeto até a praia li que ela é conhecida por suas áreas nudistas. Se há, não passamos por elas (infelizmente? felizmente?), mas o clima é menos familiar que em Malvarrosa, e atrai mais casais e jovens.

Centro Histórico

Foto da Torre de Serranos, em Valencia na Espanha.

A melhor forma e conhecer o centro histórico de Valencia é começar cruzando a Torre de Serranos. A torre, construída ainda na Valencia medieval do século XIV, foi um dos principais acessos à cidade na época.

Ao atravessar a ponte, diversas lojinhas de souvenirs e bugigangas se misturam com pequenos cafés, lojas para aluguel de bicicleta e restaurantes. A Fundación Turismo Valencia tem um mapa super completo para você baixar e fazer seu próprio tour passando pelos principais pontos turísticos do centro histórico, com uma pequena descrição de todas as paradas. A caminhada toda leva uma hora.

Dá pra ficar horas se perdendo pelas ruelas, onde além de tomar uma cerveja e comer umas Tapas, você pode explorar a street art valenciana <3

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